sexta-feira, 21 de novembro de 2008

(2008/10) Que gente é essa?

1. Que me olha dos trens, de um lado e de outro, das janelas e das portas dessa correição de ferro. Que tem a face triste do cansaço de um dia atrás do outro. Que tem seus mistérios por debaixo da pele. Da roupa. Que carrega seus pedaços de passado em cada ruga. Que foi deixando pedaços de si - nem viu - à medida que foi simplesmente seguindo a viagem. Que gente é essa?

2. Essa gente sabe o que é?, quem é? Essa gente sabe que se faz a si mesma, dia e noite, um sol que quanto mais se consome, mais é, mais está, mais promete? Uma árvore a crescer, em algum pedaço de seu percurso rumo à luz - se não lhe pisam, não lhe comem, não lhe queimam, não lhe cortam? Essa gente sabe que é um rio - o único (mas como, se ontem era como todos os outros?) que pode subir leito acima, parar, transbordar, alagar, alagar-se, rio sem curso, sem foz, sem leito - só rio e mais nada? Que gente é essa?

3. Os automóveis são como as igrejas - afastam-nos do mundo. Nós, automobilistas, nos tornamos passarinhos a voar, sem esbarrarmo-nos com os seres na terra, das pedras, do limo, dos cantos, dos becos. O nosso ambiente, trancados sempre, é o ar, volátil, asséptico, limpo, livre, nosso. Os trens - não! Os trens são ambientes de nudez: faces nuas, rugas nuas, mãos nuas, olhos que mais nus não há. O trem nos traz de volta à vida. Pelo toque irrefreável de um no outro.

4. E, contudo, esfrega na nossa cara uma verdade desconcertante - a de que essa massa de gente sequer sabe de si: não lhe contaram, não procurou saber, nunca soube, porque ocupada demais entre coisas infinitamente mais urgentes e banalidades desprezíveis ou criminosas. Porque ali, no trem, estamos diante das possibilidades plásticas da vida, seus ensaios - gente boa, gente má, gente forte, gente fraca, gente sã, gente doente, criança, jovem, adulto, velho, no singular, no plural, no masculino, no feminino, nos ensaios de gênero.

5. É paradoxal - essa gente pode ser tudo o que quiser. Mas, na prática, é-se o que se pode ser, o que a vida permite, o que os outros deixam, o que as oportunidades determinam. O trem não é o crupiê, ele já é uma das fichas, um número não escolhido da roleta, a sorte que cabe a tantos.

6. Mas que gente é essa? Projeto abortado? Potência frustrada? Malogro de megalomania DNÁdica? Desperdício da orgia de sexo que impera no nível ecológico da Terra? Dispensabilidades na contabilidade do Destino? Teimosia de coisa que não vingou, mas não morre? Não é isto que a profundidade da filosofia do Homo sapien nos diria, agora, vendo esse trem à direita, e esse outro, à esquerda, enquanto vamos caminhando, mônadas filosóficas a questionar o Inquestionável? Essa gente, aí, essa cara que me olha, que me arrosta, é aquela mesma de Pascal, que "sabe" que o Universo a esmaga? Ou não é mais do que carne vivendo, empurrada por células cujo único desejo é o trabalho e a fadiga?

7. Essa gente é uma pedra. Está aí. Nem sabe, contudo, que eu, agora, olho para ela com olhos de outros mundos, porque ela, essa massa que aí me encara, vive em outra esfera - e ainda deverá o sol cruzar o céu muitas vezes, antes que ela mesma, como eu, possa olhar para si mesma com olhos de olhar para si mesmo. Por hora, ela está ocupada demais com pão, para cuidar de estrelas. Por ora, naõ sabe, mas aguarda alguma coisa entre o parto e o aborto. E, contudo, ela é isso - essa gente, que, todavia, é.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

Um comentário:

Rogerio Alencar disse...

Belo texto! para muitos o difícil é entender de onde está: dentro do trem ou na plataforma.